A Balada do Ultramar – Excerto

Eu nasci em Angola, mais propriamente em Benguela em 10 de Setembro de 1974, e não me lembro da mais pequena coisa daquele local, que segundo os meus pais, era paradisíaco… não como nós estamos habituados a pensar no “paradisíaco”, mas sim, como exemplo de desenvolvimento económico, integração pessoal e entre-ajuda…

É claro que não falo nas Roças, que acabavam por ser algo longínquas das grandes cidades, onde existia, de certo, inúmeras formas de exploração pessoal, mas tudo o que relatam da vida nas cidades, e mesmo nas quintas dos meus familiares (que de Manteigas foram para lá), acho que quem ficou a perder mais com todo o processo de abandono descolonização, foram os habitantes locais.

Bem.. isto tudo porque por engano, o meu pai comprou dois exemplares do livro “A Balada do Ultramar”, e ofereceu-me um.

Confesso que não o li todo, e pelo que li é “mais” um romance escrito por quem perdeu muito, para não dizer tudo, e que acaba, como é natural, por puxar quase exclusivamente a lume as coisas que deixaram saudades. É natural, é aquilo a que chamamos humanidade (com h pequeno).

O que me fez escrever este post aqui foi um paragrafo único que eu vou abusar e transcrever para aqui. É uma coisa lamechas, do tipo Fortune Cookie Chinês, mas é tão certo, tão certo, tão certo… que não pude deixar de o partilhar convosco:

Dia após dia, semana após semana, lutamos para conquistar a felicidade que parece estar mesmo ali ao nosso alcance, mas acaba por ficar sempre mais além. Vamos gastando a vida com a sensação de nunca a conseguirmos desfrutar plenamente, mas, de repente, quando perdemos o que amamos, descobrimos que fomos felizes mas não tivemos o bom senso de o perceber. E o dia em que descobrimos que afinal fomos felizes é um dos mais amargos da nossa vida. Nesse instante nós também percebemos que, se tivermos a sorte de voltar a encontrar a felicidade, corremos o risco de voltar a não dar por isso.

in A balada do Ultramar, Acácio, Manuel, Oficina do Livro 2009

2 thoughts on “A Balada do Ultramar – Excerto

  1. Olha outro nascido em Angola… e que não se lembra nada de lá. Já somos dois…

    Muito bom artigo…

  2. Sim… gostava de lá voltar, e face ao que tenho assistido por aqui, são cada vez mais os que decidem ir para lá tentar a sorte… Eu sinceramente, mesmo nascido lá… não me vejo a fazê-lo… mas já esteve mais longe!!!

Leave a Reply